sábado, 22 de maio de 2010
A educação industrializada pelo paradigma pós-moderno
No Brasil, a industrialização aconteceu bem mais tarde. Enquanto era implantada a primeira indústria por aqui, na Europa, já acontecia a segunda revolução industrial. Foi no século XIX que enfim, com a proibição do tráfico internacional de escravos, a possibilidade de alavancar a indústria brasileira passou a existir de modo mais concreto. Pouco após o ano de 1889, ocorre, então, o primeiro surto industrial no país.
Se antes, no absolutismo do século XVII, o paradigma era a fé, onde Igreja e Estado detinham o poder de modo centralizado, e, mais tarde, no iluminismo, o paradigma tornou-se a razão, onde o homem passou a ser o centro do universo, hoje, o paradigma desse tempo denominado pós-modernidade, é o mercado.
Ele é quem dita a moda, as cores, cheiros, texturas, modos, meios, tendências, valores, preços, gostos, prioridades, tempos, datas, quanto, como, lugares, porquês, sons. Filho da industrialização, o combustível que o rege é o capital, e tem como prole a cultura de massa e suas promessas de soluções mágicas.
O homem agora é escravo de seus desejos e, às vezes, necessidades, ainda mais aguçadas pelas propagandas, em pról da sobrevivência do mercado publicitário, onde, de modo generalizado e simplista, trabalha em favor do incentivo ao consumo do supérfluo. (Esta é apenas uma vertente da publicidade e da propaganda. Há ainda campanhas sociais, desenvolvidas afim de suprir e resolver problemas de cunho social, promovendo conscientização, arrecadação de verba para ONGs, etc.)
A sutileza da imposição paradigmática do mercado é tão, sobre modo, intensa e constante nos ambientes sócio-econômico-culturais que, é impossível deixar de nota-la - apesar de sua sutileza ser tão astuta, ao ponto de, roboticamente, vivermos segundo os seus mecanismos de manipulação e persuasão, sem que a percebamos de fato ou ajamos voluntária e conscientemente - como um ciclo de produção em massa, feito as próprias indústrias, onde nós, indivíduos que compõem sociedades, grupos étnicos e nações, consumimos e somos consumidos pelo produto de nossos próprios desejos e anseios, escravizados pela era da informação, pelos apelos cibernéticos, cidadãos virtuais, clientes assíduos do regime do capital.
O mercado e os cavalos.
Desde pequena, ouvi aqui e ali que as salsichas são feitas de carne de cavalo. Eu nunca descobri se isso é verdade ou se é apenas mais uma dessas estórias populares que permeiam gerações e gerações e não perdem seu caráter mítico. O mercado como paradigma é como uma lenda popular. Você não sabe ao certo se é verdade tudo o que te dizem, mas acredita e compra a idéia. Passa aquilo para as gerações posteriores à sua e dá continuidade ao ciclo, como se você consumisse sem por em contra peso, em xeque, sem medir a necessidade e utilidade do objeto de consumo. Apenas compra porque a 'magia' contada a você foi o suficiente para lhe convencer a desejar possuir, mesmo sem precisar.
Mas, os efeitos do mercado, do regime do capital, em minha opinião, estão para além de apenas estas questões. Imagine. O mercado cria cavalos, faz deles salsichas, industrializa, põe no mercado, alguém vê, se convence, compra, come e vira cavalo.
O mercado lança o produto da vez, te convence, você compra, consome e vira o produto do mercado, industrializado, padronizado, embalado com um pacote de alumínio e um rótulo, um código de barras que lhe dá um valor. E você passa a ser parte do sistema, amarrado às regras da imposição pós-moderna do consumismo. No regime do capital, a máxima ‘tudo tem um preço’ é a lei, e nem sempre as percepções estão atentas para os moveres sutis ao redor. É a sociedade de consumo condicionada ao mandamento da troca.
O curioso - e talvez você demore em fazer o link disso tudo com o que direi agora - é que o mesmo acontece com a educação. Não estou certa sobre os artigos e referências bibliografias sobre o tema, mas imagino que alguém já tenha tocado no assunto, ainda que de outra forma. Então, permitam-me discorrer a respeito da questão e perdoem as incoerências e falhas da minha análise.
Bem como cada tempo tem o seu paradigma e, de mesmo modo, todas as questões e assuntos possuem os seus nos diversos períodos e épocas de seu desenvolvimento e estudo, a minha proposta é de uma análise crítica do sistema pedagógico dos nossos dias, submetido às influências das políticas neoliberais e ao mercado. Com efeito, penso que um dos pontos a serem considerados seja o fato de que, na educação, assim como é ditado pelo mercado, no regime do capital, a imposição de metodologias e a aplicação de formas de ensino estão sujeitas aos interesses políticos maiores que tentam, de todos os modos, alcançarem posições de prestígio, motivados pelo status e imagem projetada pra fora, ainda que dentro a realidade seja bem diferente.
Assim posto, podemos estabelecer como um dos paradigmas dos métodos e sistemas pedagógicos, o status, pelas estatísticas.
Ora, sim. As movimentações para atingir números favoráveis (estatísticas) para o alcance da desejada posição fixa em uma das cadeiras no conselho da ONU é um dos pretextos para certos ajustes nos métodos de avaliação e aprovação no ensino público do país. É claro que o que digo aqui talvez careça de muitas outras considerações e análises mais profundas dos fatos. Mas, ainda assim não se perde o valor e poder de transpor a questão sob reflexão, afim de pensar soluções e ações capazes de promoverem transformações, ainda que apenas locais, na realidade pedagógica no Brasil.
Sempre questionei – e esse é um dos principais pontos de minha reflexão pessoal – sobre a eficiência e eficácia de um sistema único de avaliação aplicado à grupos de alunos que estão inseridos em diferentes contextos sociais, culturais, sofrem diferentes interferências de diferentes variáveis, reagem de modos diferentes às situações e possuem tempos diferentes de assimilação de informação, conhecimento e aprendizagem. Além de interesses particulares destintos. Então, como ensinar sem considerar tantas variáveis externas? Como definir a educação como algo que acontece aquém da realidade de quem é aluno? Não creio que uma avaliação, uma prova, do modo como são aplicadas hoje - salvo professores que atuam, paralelamente, clandestinos aos métodos padrões e aplicam os seus próprios, atentando para variáveis e modos que melhor contribuem para a assimilação do conteúdo proposto e formação de alunos como indivíduos para além do tempo que permanecem dentro das paredes das escolas – possam servir como referencial de aproveitamento de cada aluno. Como medir o conhecimento adquirido? Rubem Alves , certa vez, disse que conhecimento não pode ser medido. E eu concordo com ele.
Vi num filme uma vez, um aluno que, por mau comportamento, teve como pena de detenção, trabalhar como voluntário nas horas vagas ajudando crianças com dificuldades na escola. Em uma das cenas, ele tentava explicar geometria para um menino, que após ouvir impacientemente e não entender nada, largou a explicação de lado e foi jogar basquete. Em outra cena, quando o aluno da detenção tenta obter êxito nas explicações sobre geometria para o mesmo menino, ele se utiliza do basquete como analogia. Leva o menino para a quadra e explica a matéria como se fossem orientações estratégicas sobre táticas de jogo dadas por um técnico de um time aos seus jogadores. O menino finalmente entendeu.
Temos nesse exemplo um caso de aluno e professor (considerando aluno e professor em definições simplistas dos títulos), onde, a dificuldade de aprendizado é superada pela explicação adequada a realidade do aluno, considerando as variáveis externas ao ambiente educacional da escola. Esse é o grande ponto, talvez, que caracterize um bom educador.
Ainda citando Rubem Alves, em um dos seus mais recentes livros lançados – Quer que eu te conte uma estória? – ele conta a estória do Pinóquio, o menino de madeira, ao contrário, ao avesso. Intitulada ‘oiuqóniP’, ele narra a estória de um menino que era de verdade, de carne e osso, cheio de fantasias, sonhos, imaginações, alegrias nas cosias simples da vida, como todas as crianças. Até que um dia, lhe mandaram pra escola, dizendo que é assim que se fica preparado pra vida, que se vira gente. Em uma das partes do texto, para ilustrar a ideia da crítica, ele diz: “É preciso ir para a escola. Todos os meninos vão. Para se transformarem em gente. Deixar as coisas de criança. Em cada criança brincante dorme um adulto produtivo. É preciso que o adulto produtivo devore a criança inútil”.
Aqui está a relação entre a educação, a indústria e o mercado, e talvez a revelação de umas das vertentes da crise pedagógica. Rubem Alves, ao final da estória, fala sobre o triste fim do menino, doutor de todos os saberes, mas sem coração. Virou um menino de madeira, igual a tantos outros meninos que sofreram a mesma metamorfose. Ele comenta, no início, sobre o fato de como, na verdadeira história do pinóquio, a escola é o lugar que transforma meninos de madeira em meninos de verdade, e o que estiver fora disso, faz dos meninos burros. Minha intenção nesse trecho não é fazer apologia a qualquer tipo de boicote a escola, mas apenas causar a reflexão a respeito dessa deficiência pedagógica do ensino, fruto, em grande parte, das influências neoliberais e pós-modernas dos nossos dias.
A educação como um mercado, vende a fórmula única de ‘felicidade’, ao estabelecer e dizer que só vira gente grande aquele que estuda e se torna bem sucedido, segundo os requisitos estabelecidos pelo e para o mercado, afim de servir a tal ditadura. O resultado disso é uma educação que caminha para a industrialização de meninos, aquém de suas realidades de carne e osso, importanto apenas que estejam capacitados para atender ao mercado, como máquinas projetadas para produzir e dar continuidade ao regime do capital.
Quando a realidade é essa, pouco importa aprender sobre basquete para ensinar geometria. No final, tudo se encaixa apenas em dois únicos grupos; os que servem e os que não servem. Pena que inverteram os graus de importância. Pra economia girar e ficarem bem vistos lá fora, empenharam-se em produzir meninos de madeira, mas sem coração. Se esqueceram que educar é aprender com meninos de verdade sobre as fascinações de ser de carne e osso.
Isa.
Texto escrito para o blog do MCM - Movimento Contra a Miséria - Eles estão em estudos sobre 'Pedagogia Popular'. Há um grupo de estudos aberto a quem desejar participar. O link está no blog do MCM.
Visite e conheça.
quarta-feira, 5 de maio de 2010
Os meus re-versos
Críck na imagem para migrar pro lado avesso, o meu inverso, meu eu em marcha ré.
Eu tenho um outro espaço, um outro lado. Ele é recente. Na verdade, ele é antigo. Está dentro de mim o tempo todo, mas, só decidi criar um 'quarto', uma caverna, pr'esses tantos do meu ser, à poucos dias. Ainda está em construção. Mas, tudo bem. Eu também estou sempre assim.
Lá, eu postarei as inversões de mim, daquelas que não cabem aqui.
Caberiam se eu quisesse, mas, prefiro lhes contar em outro canto, um esconderijo mais secreto, pra não perder o sentimento, ou o clima, desse grito intimista, uma abafo da garganta, um manifesto em fundo escuro, mas que, quando externado, vai clareando à céus os dias.
O meu coração, por lá, está exposto de outro modo.
Há muita coisa publicada. A grande maioria, também já publiquei aqui. Mas, lá, haverá mais, que aqui, não escreví.
Visite.
Beijo,
Isa.
segunda-feira, 3 de maio de 2010
Silêncio e Fascinação
Um deles, a quem, confesso; o tratava com desconfiança no começo, hoje me acompanha boa parte do dia. Seu nome é Silêncio.
O Silêncio, me apresentou sua namorada, a Fascinação.
De cara, ela me mostrou detalhes, momentos, faíscas, pessoas, lugares, jeitos e rachaduras que eu jamais teria percebido sem a sua ajuda.
Hoje, somos grandes amigos.
Fiz minhas as palavras de Abraham Heschel, dirigidas em seu leito de morte a um amigo: "Sam, nunca em toda a minha vida pedi a Deus, sucesso, sabedoria, poder, ou fama. Pedi fascinação, e ela me foi concedida."
E agora, muitas vezes, me flagro: embriagado com alguma coisa que me encha os pulmões de oxigênio, os olhos de lágrimas e a boca de júbilo. Tenho sido constantemente flagrado pronunciando algum palavrão sem saber expressar o que sinto por dentro. O palavrão é por não saber o que dizer. Ele vem suave, escorrega da língua aos lábios, e é pronunciado na mesma intensidade da minha fascinação.
Lembro de Rubem Alves, o velho mineiro, meu amigo. Não somos conhecidos. Somos amigos pela leitura. Sou amigo de Rubem Alves assim como sou de Paulo, de Nietzsche e de Clarice.
Rubem Alves costuma dizer que "sem beleza não há salvação". E eu, em respeitosa comunhão, digo Amém.
O rastro da poeira na estrada de terra logo após o caminhão passar; o cheiro da dama-da-noite, árvore safada que se entrega e exala seu perfume quando o sol se esconde; a mulher grávida arrastando sua chinela para atender a porta; a estrela que resolve brilhar mais só porque um menino está nascendo; uma vela ainda esfumaçando ao sopro da menininha em seu aniversário de oito anos; um velho rezando; o salto desengonçado do golfinho; a panela cozinhando o feijão; o vento que espalha as folhas da pracinha; anjos que hospedam em palácios as crianças de rua e as têm por filhos; o tropeço do palhaço; as tecnologias dos computadores, o vento que desarruma o cabelo da violinista; o filho pródigo que encontra a companhia do pai no caminho de volta pra casa; uma estante de livros; o giro do ventilador em noite de verão; um semáforo piscando na rua deserta duma madrugada solitária; a garoa que faz arder os olhos; o vovô sorridente enterrado até o pescoço pelo netinho na areia da praia; a menina que sorri enquanto canta; o voo do tucano; a goteira que enche o balde; mesa farta; fotos entre amigos; o vermelho do fogo na fogueira; uma visita surpresa de Deus ao orfanato; uma canção desafinada nas vigílias dos insônes; os lobos apaixonados pela lua cheia; a fé do herege na busca por crer; o grito da vitória; qualquer bandeira ao vento; as mãos dadas dos namorados; a onda que quebra na praia; as folhas de fax; o sorriso banguelo do mendigo; o médico que atende gratuitamente; a oração sem palavras; a inteligência dos autistas; a mochila esfarrapada do jovem missionário; a pintura no rosto dos pataxós; cheiro de chuva; a rapidez dos mágicos; mãos bailando nos aplausos dos surdos-mudos; Deus que se faz gente...
Os contemporâneos de Francisco de Assis chamavam-no le jongleur de Dieu - o palhaço de Deus. Na primeira reunião pública dos franciscanos, com a presença de três mil irmãos, Francisco ordenou gentilmente aos pássaros que parassem de piar para que os freis pudessem ouvir seu sermão. Eles obedeceram de imediato. Ele amansou um lobo que devorava pessoas no vilarejo de Gubbio e fez com que o povo do local prometesse que não deixaria de alimentar o carnívoro todas as noites. Pegou dois pedaços secos de madeira, fingindo ser arco e violino, e entoou canções de amor a Deus em francês. Compôs um cântico que louva a Deus pelo irmão sol, pela irmã lua, pelo irmão fogo e pela irmã água, e até pela irmã morte. Muitas vezes ele plantava babaneira para ver o mundo de cabeça pra baixo, lembrando aos seus próximos e a si mesmo que a vida no planeta Terra está numa relação de plena dependência da bondade de Deus.
Temos observado o mundo com olhares técnicos. Precisamos da visita de Solidão e Fascinação para nos permitir enxergar a beleza. Precisamos do Silêncio que nos remete numa louca viagem para dentro.
Brennan Manning, em seu livro Ruthless Trust: The Ragamuffin's Path to God (Confiança Cega, no Brasil, pela MC) escreve:
O salmista declara que os céus e a terra estão cheios da glória de Deus. O poeta Gerard Manley Hopkins escreve: "O mundo está carregado da grandeza de Deus". Thomas Plunkett insiste: "Vejo o sangue dele numa rosa". Entusiasmado, Agostinho declara: "Ó Beleza sempre antiga, sempre nova".
Num país degradado por bairros poluídos e paisagens destruídas, os visionários espirituais aquietam os temores que cultivamos e nos inspiram a confiar, levantando nossos olhos para a exuberante beleza de Deus manifestada na criação. Comentando o salmo 148, Agostinho pergunta: "Será que Deus se proclama nas maravilhas da criação?". E responde: "Não. Todas as coisas o proclamam, todas as coisas falam por ele. A beleza que elas têm é a voz com a qual anunciam a Deus e cantam: "Foste tu que me fizeste bela, não eu, mas tu'". Poetas, cantores, compositores, romancistas, músicos, palhaços, e místicos fazem com que as vozes da criação sejam capazes de exclamar: "Como é belo aquele que nos fez!".
Quando criança, John Henry Newman imaginava que por trás de ccada flor havia um anjo escondido que a fazia crescer e se abrir. Mais tarde na vida, tendo-se tornado um eminente teólogo na Inglaterra, ele escreve: "A realidade é mais profunda. É o próprio Deus que pode ser percebido na beleza das coisas sensíveis".
Até Jesus de maravilhava com a beleza que o cercava: "Vejam como crescem as flores do campo: elas não trabalham, nem fazem roupas para si mesmas. Mas eu afirmo a vocês que nem mesmo Salomão, sendo tão rico, usava roupas tão bonitas como essas flores" (Mt 6:28-29 NTLH).
Fascinação nos ajuda a enxergar além do literal. Nos desafia a sonhar com nosso lar, cuja beleza que nos aguarda jamais foi vista por nossos olhos, ouvida por nossos ouvidos ou concebida por nossa imaginação.
Procure por Silêncio, ele te apresentará Fascinação.
Gito.
terça-feira, 27 de abril de 2010
Mais açucar pro seu peito?
Parte ao meio não se sabe ao certo onde. Faz doer cada raspar, até que passe. - Ou não.
O peito, confuso, sangra, perdido como um leigo em ler mapas.
É certo que a angústia também mata. Se dormir passa? - Tem gente que a varre pra baixo do tapete.
A angústia tem um "Bom Dia" estridente.
Ela dóma o peito que não dorme em berço quente. - Como ninar nesse colchão?
Ah, se eles soubessem que pra angústia,
a fé é feito açucar a estancar o sangue.
segunda-feira, 26 de abril de 2010
Um conto em 144 caracteres
Altivo, veio o homem engravatado, com sua religiosa razão, lançando-lhe 1 repreensão: Muleque encapetado, + respeito com a casa do Senhor...
Ele desligou os motores e aterrissou. Confuso, sentou-se num canto pra tentar entender o sentido daquela repreensão...
É q ele aprendeu certa vez, que Deus faz morada nos corações. Então, ele gritou: "Mais respeito comigo, senhor, pq a casa de Deus sou eu."
Deus habita onde há corações de menino, que fazem da vida um vôo livre. Mas jamais morará em corações q se assemelham à templos de concreto.
sábado, 24 de abril de 2010
No Jardim
Ela havia sido criada à partir da costela.
Ele sempre fazia a mesma piada, todos os dias: Você é o meu filé mingnon! hahaha - Gargalhava Adão.
E Eva respondia: E você é a picanha!
Passeavam pelo jardim, dando frutinhas aos esquilos e aos leões. É que antes, os leões também não se interessavam por carne. E eles todos faziam churrascos de morangos no espeto, banhados no mel.
Diziam que era uma delícia. Adão e Eva gostavam e faziam de monte. Nunca faltavam morangos e as abelhas não ferroavam e nem se importavam em repartir o mel. Davam-no como presente.
Tudo estava na mais perfeita harmonia. Deus sempre aparecia pr'esses churrascos e trazia suco de uva, desses concentrados. Quando todos já estavam empanturrados de comer, Deus contava umas piadas. A turma toda ria até a barriga doer. Não dava dor de barriga, então, podiam rir à vontade.
Certa manhã, Eva caiu na lábia da serpente sagaz.
Confundida, foi apanhar uma das frutas da árvore que Deus havia dito para não comerem, porque, no dia em que comessem, era certo que morreriam.
Mas, Eva se esqueceu, e foi. Comeu e dividiu também com Adão.
Então, como nunca antes haviam percebido, notaram-se nús, e envergonharam-se.
Era quase hora do churrasco do dia e Deus estava chegando com as amoras, suco de uva e outras novas piadas.
Quando eles ouviram os assovios de Deus se aproximando, correram pra se esconder atrás de umas folhas de figueira.
Deus, ao se aproximar, notando o silêncio incomum e ausência dos bichos, perguntou: Onde vocês estão?
Eles, escondidos, tiveram vergonha de responder. Mas, por causa da piniqueira que a folha causava, não aquietavam-se e Deus os encontrou, e disse:
O que fizeram? Eu não disse pra não comerem a fruta?
Eles não sabiam se se coçavam ou se continuavam a esconder suas 'vergonhas'.
(Dizem que por causa desse episódio da piniqueira, é que os homens coçam seus 'chuveirinhos' até hoje. rs)
A cena era a mais ridícula que se consiga imaginar.
Um tentou jogar a culpa pro outro.
- A mulher me ofereceu, e eu comi. Não fui eu quem teve a idéia - Dizia Adão, fugindo.
- Foi a serpente, meu Deus. Foi a serpente. Ela me confundiu e me enganou. - Dizia Eva, sem saber o que fazer e dando mais uma mordida pra conter a ansiedade.
Como Deus havia dito que aconteceria, a morte passou a existir quando eles tornaram-se conhecedores do bem e do mal.
Ora, o saber é sobremodo atraente. Mas, não conduz a outro caminho senão o de engano e de morte.
Aquele que anseia o saber, nota-se nú e se esconde nas folhas que pinicam por inteiro, se embaraçam em situações ridículas.
Deus, com muita dor no coração, ainda disse: Faremos outro churrasco quando vocês perceberem que, mesmo tudo sabendo, do bem e do mal, fóra dos Meus planos perfeitos, vocês sempre estarão nús e expostos ao extremo ridículo.
Isa.
Houve um tempo
Dizia ser um representante de Deus.
Oprimia aos outros homens e lhes cobrava indulgências.
Cortavam-lhes a cabeça. Torravam-nos na fogueira.
O homem se endiabrou, quis ser o deus de outros homens.
Mas, só conseguiu ser diabo.
Houve um tempo em que o homem cansou.
Não aceitou mais ordem nenhuma de nenhum senhor de roupas finas.
Em seu renascimento, iluminou-se nas idéias.
Enfraqueceu o poder do cléro.
Fez-se, então, de sí mesmo, o seu próprio deus.
Amigou-se com o diabo.
Houve um tempo em que os homens de roupas finas
chamaram os outros que se rebelaram, de endiabrados.
Nem perceberam que eles próprios eram diabos.
Estes, desde sempre, atribuíram tudo à Deus
para fugirem da responsabilidade de seus próprios atos.
Fizeram de Deus um diabo.
Houve um tempo em que os homens que se cansaram, pensaram, então, estar livres.
Filosofaram, apedrejaram todas as religiões.
Descreram de tudo e de todos os deuses.
Mais corajosos, assumiram as responsabilidades de seus atos.
Mas, quando a terra tremia, o vento girava, os vulcões cuspiam e os céus desabavam
Impotentes, não sabiam explicar e pensavam: Se esse Deus existe, é certo que é um diabo.
Na verdade, tudo isso ainda há.
Todos fizeram-se deuses de sí mesmo.
Uns, pra sustentar esse reino, fizeram em nome de Deus, sem que Deus, de fato, jamais tivesse assinado embaixo dos feitos.
Outros, pra consquistarem seus reinos livres, fizeram o bem de fugirem desses outros homens, mas, sofreram o mal de confundirem ser Deus esse diabo que é o deus-homem.
E ninguém percebeu Deus de verdade.
Nem mesmo quando a terra tremia, o vento girava, os vulcões cuspiam e os céus desabavam, ninguém se tocou.
Isa.
