quinta-feira, 25 de março de 2010

Coração de pássaro





Sou um pássaro, meu coração é minhas asas


Quando ele arde, os vôos desnorteiam

E o meu peito toma sopro em outra sorte, em outro vento.



Quando se é pássaro, a vida vira um ninho

O que aqui a gente bota, choca o mundo inteiro

E eles gritam todos: gema, gema, gema.


Que desejar mais tortuoso. Que tanto ódio que se expreme.


Ah, o vôo sangra, se o coração aberto está

De tão sincero o meu sentir, o mundo me dói dentro.


Não tenho cascas, não sou ovo.

Tenho carne e muito sangue. Do meu migrar faço canção.

Eu sou um pássaro, exploro os céus. No coração, asas abertas.




[Isabela Pizani - 26.03.10]


Ao Som de Bill Callahan

terça-feira, 23 de março de 2010

Isa numa (Anti) Social

Aqui no BrÓg, eu exponho as idéias. No Twitter, sintetiso os pensamentos e encaminho o BrÓg, pra quem quiser ler algo mais do que 144 caracteres. Agora, no Formspring, fico à merce das perguntas alheias. Mas, dou minhas respostas. rs

Assim, pra diferenciar as plataformas, criei definições:

Aquí no BrÓg: "Desde pequena qu'eu sou meio torta, vivo n'outro mundo, um tanto às avessas, de mente invertida. Eu que sempre guardei tudo em mim, resolví me arriscar em expor o coração, escrevendo. Isso aqui é mais um inversão de mim. rs" - http://www.isabelapizani.blogspot.com/

No Formspring.me: "Desde pequena qu'eu sou meio torta, vivo n'outro mundo, um tanto às avessas, de mente invertida. Eu que sempre fiz as perguntas, resolví me aventurar em dar as respostas. Isso aqui é mais um inversão de mim. rs" - www.formspring.me/isabelapizani

No Twitter: "Desde pequena qu'eu sou meio torta, vivo n'outro mundo, um tanto às avessas, de mente invertida. Eu que sempre fui enrolada e subjetiva, resolví me arriscar em ser breve e objetiva. Isso aqui é mais uma inversão de mim. rs" - www.twitter.com/isapizani

Leia aqui. Siga lá. Pode Perguntar.

terça-feira, 16 de março de 2010

Em Síntese

Sobre as religiões:

Eu não creio nas religiões. Ainda que se diga que 'religião' significa 'a busca do homem por 'deus''. Ora, tal significado refere-se à busca por qualquer 'deus' a partir de uma atitude humana, até mesmo ao deus-homem mesmo. Acaso sabe o homem o que buscar? Se soubesse, não haveria apenas uma única religião ou religião nenhum? Quando parte do homem, é falho.

Sobre Deus:

Eu creio em Deus. Sim, Ele eu bem sei que posso buscar, pois, ao contrário das religiões, não parte nunca de mim, mas, dEle. Porque Ele amou primeiro. Isso é o que dá acesso direto, e encaminha a busca da gente pra cruz, longe dos altares humanos. Ele me buscou primeiro. Quando parte de Deus, é redenção perfeita e eterna.

Mas, que fique claro: não faço da minha descrença das religiões uma desculpa para ficar à deriva na vida. Ainda creio que Deus se manifesta na re-uniões das igrejas quando esta se faz no coração dos que congregam, e independem do 'templo'. Melhor é estar à deriva com Deus, onde ele sopra na direção que quiser e a gente, como barquinho à velas, apenas vai e navega.

Sobre o meu ceticismo e a minha fé:

Eu sou cética. Sim, sou cética em meus modos de agir na vida. Descobrí isso com maior eviência em Janeiro, quando fiz uma viagem pra Brasília, pra passar as férias numa ONG, desenvolvendo um trabalho. Durante os dias lá, fiz uma trilha e diagnostiquei ceticismo em mim, muito mais forte do que eu imaginava. Preciso 'ver para crêr'.

Eu tenho fé. Sim, eu sou alguém que crê. Pode parecer um paradoxo, uma contradição, e, de fato, é. A fé é a firme convicção das coisas que se esperam e a certeza das coisas que não se vêem. Assim, a minha fé é para mim um bem, pois, à medida em que creio, eu, que naturalmente sou cética, nego-me a mim mesma. Isso porque a lógica da fé é outra e dá pra gente, que é cético, outra ordem. O paradoxo em ser cético e ter fé faz a gente ficar invertido; Quem precisava 'ver para crêr', vira gente que 'crê para ver'. O que, por incrível que pareça, faz sempre muito mais sentido.

Isa.

quarta-feira, 10 de março de 2010

O Marketing da Fé

Uma vez, na minha adolescencia, me disseram que ser um cristão radical era dizer não às drogas. haha, pode rir. Eu também dei risada.
Achei curioso e pensei que, talvez, me soaria com algum sentido se eu tivesse problemas com drogas. Mas eu duvido. Se não usei drogas foi porque usa-las me fez muito menos sentido do que a tal afirmação sobre o que é ser radical.

Assim, uso esse episódio como pretexto para perguntar; Por que dizer não às drogas é radical?

Eu não quero ser a maça podre aqui, e nem avacalhar com todo o esforço realizado em pról da tentativa de manter a moçada longe das drogas. Mas, é que não faz o menor sentido mesmo. Seria como eu dizer que um cristão tradicional é aquele que não bate palmas na igreja na hora das canções, caso eu quisesse que ninguém batesse palmas no culto.

O que vejo, é apenas que tudo faz parte de alguma coisa que eu chamarei aqui agora de 'marketing da fé'. Digo isso porque não entendo o que essas estratégias de persuasão, e tantas vezes manipulação mesmo, na caruda, podem produzir de melhor que o simples e puro evangelho não possa.
No evangelho, tudo está tão às claras, tão solto que é justamente por isso que ele vem como Boa Nova, como libertação, que produz bons frutos e transforma as vidas de quem entende e passa a viver o próprio evangelho; sem máscaras, manipulações ou tradicionalismos.
Não é necessário que existam essas coisas. Ora, se Deus é luz, logo, nada está escondido, posto que em nada haja escuridão e possa ser camuflado. Isso é o que faz da vida com Deus um jogo limpo. Mas, essas coisas surgem porque alguém antes também disse que um cristão 'assim', tinha que ser 'assado'.

O problema não é dizer isso, mas a forma como se diz e para que se diz. Isso me faz lembrar de quando Jesus disse aos discípulos que importava que eles amassem uns aos outros e que apenas o amor daria valia a tudo o que viessem a fazer. Não há manipulação, apenas um caminho para a verdade. Jesus não argumenta nada além de que sem amor nada vale. Sim, leia lá em João. Jesus está dizendo que importava apenas que eles amassem e que pelo amor eles seriam conhecidos como seus discípulos, mas ele não diz 'um bom disípulo meu é aquele que ama'. Ele apenas diz que a gente precisa amar e que a consequência disso seria sermos conhecidos, pelos outros, como seus discípulos.

Ele não dá importancia pro título, mas, ilustra o que quer dizer com a idéia de que discípulo é aquele que ama. Ora, Ele diz assim porque não há como ser discípulo sem amor, pois, Deus é amor e quem não ama, não conhece a Deus, porque Deus amou o mundo de tal maneira que...

Então, se quem não ama não é discípulo, acaso, quem usa drogas não é cristão?

Pergunto isso sem fazer apologia a nada. Mas apenas para ilustrar como a lógica ‘cristã’ é diferente da ‘lógica’ de Jesus. Jesus não trabalha com esteriótipos, condições, tipos disso e daquilo. Ele trata sim de problemas existênciais, circunstânciais, sociais e espiriuais, conforme cada pessoa necessite. Em João é possível encontrar todos esses tipos abordados por Jesus. E, em nenhum deles Ele diz ‘gente assim é assado’. Apenas trata tudo como deve ser tratado, sem dar importância excessiva ao que não é necessário. No mais, diz o que é o evangelho e como deve ser a vida. Ora, as coisas do evangelho, que é Jesus, são coisas simples e que produzem o que é bom pra existência do homem. De modo que, tudo é feito na verdade e no amor, porque isso produz vida.

Assim, que argumento pode ser mais poderoso e transformador do que o próprio evangelho puro e simples?

Ah, mas nossas igrejas estão tão cheias de discursos de manipulação, de constrangimento, disso e daquilo, de proibições, de lista de pecados, de punições pra isso e para aquilo. Pra moçada, eles tentam vender um esteriótipo ‘desejável’ afim de ‘proteje-los’ dos perigos do ‘mundo’. Daí o velho discurso sobre ‘ser diferente’, ‘radical’, ‘descolado’, isso e aquilo. Tenho tanta preguiça dessas coisas agora.
Você não pode falar palavrão, mas pode julgar o irmão. Você não pode beber cerveja e não pode um monte de coisas [É claro que, se você possuí tendências para o consumo de bebidas e o que for – quer seja por razões biológicas, genéticas, influência e etc – bom é que você não consuma e nem experimente para não desenfrear em você pulsões de auto-destruição.]

Até chega a parecer que quem ensina tais coisas com tal metodologia não crê que a sobriedade quem dá é a conciência do evangelho e que o espírito é quem convence de todas as coisas. Ora, acaso o que está em mim não é maior do que o que está no mundo? [E quando digo mundo, não entenda como se diz por aí, pois, eu e você também somos do mundo. Alguém aí já conheceu alguém que fosse de outro planeta, galáxia ou dimensão?]

Lembrando que aqui, não estou fazendo nenhuma apologia à nada. Já escreví aqui mesmo nesse blog sobre como creio que tudo nessa vida, mas tudo mesmo, é apenas o que é. Na maioria das vezes, a gente, por causa da impregnação da religião em nós, é que endiabramos tudo, segundo os ‘não podes’ e classificações de coisas ‘do mundo’.

Entretando, digo e reforço; Gente, tratem tudo sempre na verdade, sem manipulação. Não endiabrem a vida, mas também não barateiem a graça. Levem Deus à sério. Não é necessário nenhum Marketing pra manter ninguém em lugar nenhum, quando se trata de Deus. Aos que estão começando agora a caminhada pelo Caminho, digo, coma do evangelho e somente do evangelho, a verdade é só Jesus e o fardo dele é leve. O que estiver fora disso e vier como peso, não provém dEle, pois, a verdade em nada oprime, mas liberta.

Aos que estão no Caminho a mais tempo, instrua os novos somente com a verdade, pois, todos estamos debaixo da graça que nos justifica e dentro de nós há um espírito que nos convence do pecado e nos conduz, diante de todas as coisas que nos são lícitas, por caminhos que convém e edificam.

Creio muito mais que o que faz realmente diferença é ser igual. Na gente, uns com os outros, é a igualdade que faz a maior diferença. Saber que todo mundo é gente do mesmo jeito, vive sob o mesmo sistema, tem as mesmas crises, vive as mesmas questões na juventude, enfrenta as mesmas tentações e até comete os mesmos pecados. Caminhar com quem sofre das mesmas coisas que nós é muito melhor do que caminhar achando que a gente é o problemático.

Foi assim com Jesus. Ele, que era Deus, se encarnou e tornou-se homem, igual a nós. Pra viver as mesmas aflições e dores. Do contrário, o sacrifício na cruz não seria de fato sacrifício e não poderia redimir como redime.

A gente vive melhor a verdade quando entende que a vida tem dessas coisas mesmo, que nenhuma anormalidade há nisso tudo, mas que Deus dá força pra gente enfrentar a vida como ela é e escolher aquilo que é bom e faz bem. O merchandising de Cristo foi feito lá na cruz, onde ele foi vendido como produto, pra vender sua vida afim de comprar a nossa, pagando o preço de nossos pecados. E Ele estava nú. Isso sim é que é radical.

Entenda o que digo. E que Deus te dê o entendimento que vem dEle e está pr'além de mim e de qualquer outro,

Isa.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Astronauta

Já era tarde quando ela durmiu os olhos, depois de um dia comum. Desde menina que ela se aventurava pelas madrugadas, sozinha, enquanto todos os outros dormiam. Pela noite, entrava em órbita, visitava planetas e conhecia as estrelas. Constelações de pensamentos habitavam sua mente até que os olhos pesavam e o sol apitava. Ela apagava quando o dia acendia.

Mais tarde, continuava a quase não dormir. Levantava com os olhos vermelhos, ardendo por mais umas horas de sono. Mas, o dia lhe chamava. E ia, sem muito querer, ver o dia passar em passos lentos. Tinha um profundo desejo; ver o relógio picar as horas com pressa.

Um dia, em uma das madrugadas vividas, adormeceu os olhos e, antes que o galo cantasse, despertou n’um pulo, no meio da noite, arregalou a alma e, n’um berro do espírito, expirou. Clamou um grito de misericórdia; "Meu Deus, perdoa-me! Porque fiz, porque sou, porque quis." E fora, de súbito, um despertar, na madrugada, de alívio. Num desespero de vida, sem ser n’um tempo tardio, arrependeu-se dos seus pecados e sucumbiu; na relutância do corpo, entre o sono e seus sussurros, outra vez dormiu.

Pela manhã, arregalou-se sem saber se o que vivera havia sido real. Raiou sentindo como Deus; algumas coisas foram lançadas ao mar do esquecimento. Na madrugada, havia morrido pra morte e parido-se pra vida; nasceu. Soube que Deus descansava os olhos e lhe fizera sentir como Ele sentia. Exclamou: "nada me fizera voar por tantos milênios áté este dia. O perdão nos arrebata à outras galáxias, nos acopla à outra energia. Arrepender-me foi-me a maior das viagens. Deus me transportara em sua nave a um outro planeta. Esvaziou-me da poeira do espaço-pecado e encheu-me com seu amor intergalático, feito um raio que alumiou minha alma."

Por isso havia acordado desse jeito, inebriada. Todo pecado é perdoado se vem de corações arrependidos. E Deus, o autor do universo, de fato, lança fora os pecados ao mar do esquecimento. E de tão profundo, é como se nunca houvessem existido.

Ela exultou-se e salmodiou;

Deus do universo, a quem te compararei ?
És tão maior do que as galáxias e os seus mistérios semelhante ao dos buracos negros, mas infinitamente mais profundos.
Quem poderá te medir? Ninguém poderá. Pois, tua grandeza não cabe no universo inteiro.
A tua glória é infinda e a tua luz brilha mais do que todas as constelações em uníssodo brilhar.
Eu sou como o pó que com um sopro se dissipa e se finda. Os meus dias são como a sombra.
Sem Tí, óh Deus, eu mergulho em trevas, me engasgo no viver. Sou folha verde que seca antes do outono e morre.
Os meus caminhos são tortuoso e minhas veredas são errantes porque me esqueci de Tí, e contra Tí pequei.
Meus ossos envelhereram-se e juntamente a minha alma adoeceu.
Sem tí, sou povo obstinado, de coração impuro e de imundos pensamentos.
Mas o Teu espírito me constrangeu, me atraiu à gravidade de Tua órbita.
Tú, óh Deus, és o meu sol. E eu, sou planeta em devastação.
Mas, as tuas misericórdias se renovaram sobre mim e aqueceram o meu chão, fertilizaram o meu solo, potabilizou a minha água.
A tua graça é meu escudo e o teu amor é como o vácuo; me faz flutuar à merce de Tuas mãos.
O Teu perdão me faz um vento; pelo Teu sopro eu vou, eu vôo, vou ao sul de toda sorte onde o meu norte é o Teu querer.
A Tua Paz me embriagou. A Tua vida me fez livre.
Você me faz caminhar por caminhos de infindas boas descobertas.
O Teu ouvir; a minha prece - Decolo em oração.
O Teu amor; a minha paz - Repouso na estação.
Sua astronauta eu sou.


Isa.
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LETRA



quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

O anjo que fumava.

Voltava de Vitória quando encontrei a derrota e sem trocadilhos: O ônibus que me levaria de Campinas para Cordeirópolis, na casa dos meus pais partira há 5 minutos. O outro, apenas no dia seguinte. Confesso que não me importo por dormir na rodoviária, pelo chão, ou passar a noite emzumbizado nos bancos nada confortáveis e urinar aos arredores do saguão, atrás de ônibus, para não pagar a maldita taxa de limpeza ou sei lá o que é aquilo que inventaram para arrancar dinheiro com as necessidades fisiológicas dos seres viventes.

Um dia o mundo será melhor, quando proibirem de cobrar do cidadão comum para este, usar o banheiro e melhor ainda será quando os homens, conseguirem mijar certinho na água do vaso, o que eu acho um sacrifício quase insuportável.Foi nessa de procurar um local apropriado para as necessidades fisiológicas que eu encontrei com eles. Um, mais velho. Boné torto na cabeça, tatuada uma coroa de espinhos na perna, bolsa nos ombros, mãos sujas de tinta, olhar penetrante, ativo, vivo, acelerado. Passava de guichê em guichê, perguntando qual dos ônibus passaria por Leme. O outro, mais novo e mais gordo. Tatuagens por todo o corpo, boné para trás, uma mala antiga, tênis sujos, olhos claros. Foi por ouvir o destino que eles procuravam que eu me intrometi e disse: Mano, ônibus pra Leme só amanhã de manhã. É o mesmo que o meu.Eles então, preocupados questionavam: E se parar na metade? E se pegarmos um taxi? E se conseguirmos uma carona de caminhão? No fim dos questionamentos sem respostas, fomos obrigados a admitir que a noite seria longa, de muita conversa e que aqui na terra, a vida nos prega peças, principalmente o tempo, que é obstinado por nos encurralar. Deitamos no chão da rodoviária. Eu e meus conhecidos. Perguntei seus nomes. Felipe e Rafael. Brinquei: Nome de anjo e de discípulo. Eles riram. Estava quase adormecendo, apesar da dor nas costas do chão duro, quando uma senhora com um carrinho daqueles de limpeza de chão de Shopping Center e outro rapaz, forte com uniforme ou farda, nos disse que era proibido dormir ali.

Logo, me lembrei das torturas que li num livro sobre as ditaduras no Mundo. O prisioneiro era obrigado a ficar em pé, numa caixa com muitos pregos por todos os lados. Caso ele cansasse ou dormisse, os pregos lhe enfiavam na pele e nos ossos. Os meus mais novos conhecidos tinham vindo de uma cidade perto de Caraguá, eles trabalhavam colocando gesso nos tetos de prédios de gente rica. Eles ainda mostravam nas roupas as marcas do trabalho. E eu, mulambento como sempre, parecia que havia recém-chegado de um Festival da Flanela Quadriculada.

Fomos andando, sem rumo, apenas para lutar contra o sono quando vimos um jovem de terno, paletó na cabeça, pés sobre as malas, dormindo da mesma forma que nós dormíamos mas com uma diferença: Ele não foi incomodado. O sono dele era importante, talvez.Percebemos um ônibus saindo para Americana. Cidade vizinha de Campinas, mas pelo menos mais próxima da nossa. Foi o Rafael quem deu a ideia de irmos até lá. Fomos, dormindo, roncando, acabados de cansaço. Ao chegar, constatamos: A rodoviária era nossa. Não havia nenhum anjo para proteger, nenhum demônio para atormentar, nenhum menino de rua cheirando cola e nenhum guarda fardado à proibir sonhos e sonos. Acordados, apenas nós e Deus. Vimos ao longe, uma placa vermelha indicando hotel. Foi o Rafael, novamente, quem propôs de irmos até lá, tentar a proteção das paredes e um colchão.

Fomos, mas ao chegar, constatamos que não passava de um motel, ou bordel, com a entrada e saída de casais no qual a mulher usava as roupas típicas das profissionais do sexo e o homem tinha o olhar típico dos profissionais do cio.Um rapaz, com cara de travesti nos atendeu, falando pouco, mal humorado, resmungando e cortando a fala para atender telefonemas. Rafael disse: Perdemos nosso ônibus, estamos cansados e gostaríamos de passar a noite aqui por causa do perigo de dormir na rodoviária. O rapaz, fez cara de não sei, mordeu o lábio, entortou a cara e disse: 30 mangos vocês ficam num quarto com goteira, sem água e cama, apenas 3 colchões, topam?Existem perguntas que o cansaço é que responde, então topamos.O quarto era uma espelunca. Cada um deu 10 reais. Eu dei meus únicos 10 reais. Fiquei de comprar a passagem no dia seguinte, com o cartão.

Acordamos com o telefone tocando às 5 da manhã. O rapaz com cara de travesti disse que nossa hora havia acabado. Fomos, sonolentos, até a rodoviária. Lá, não havia guichês abertos, era necessário pagar a passagem direto ao motorista, meu ônibus estava partindo e eu não tinha como pagar com cartão direto ao motorista. Foi quando o Rafael, arrancou dinheiro, pagou minha passagem ao motorista e disse: Vai mano, se livra desse cansaço. Acendeu um cigarro e menosprezou minha gratidão como se pagar minha passagem fosse a sua obrigação.Eu fui agradecer-lhe doando um dos livros que eu trazia na mochila, quando ele desapareceu. Enquanto eu guardava a mala no bagageiro, ele sumiu. Perguntei ao motorista: O senhor viu aqueles dois rapazes comigo? Ele respondeu: Foram por ali. Eu fui, e nada.

O ônibus que os levaria para Leme era o mesmo que o meu. Nada. Não os encontrei. Fiquei confuso. Ao entrar no ônibus vi o cigarro, queimando no chão, quase inteiro.Rafael e Felipe, meus companheiros de madrugada sumiram. Eu tomei o ônibus, e no caminho pensei sobre a vida que nos prega peças. Sobre os anjos que se disfarçam de gente ou de gente que se faz de anjos. Em Limeira, ouvi o policial militar falar sobre o assalto que fizeram no caixa eletrônico da rodoviária de Americana durante a madrugada.



Gito.

Ah, o carnaval....

Depois do Chico e do Jorge Ben, das marchinhas e trelêlês... essa canção é a qu'eu mais gosto de ouvir na folia. Imagino e faço um carnaval dentro de mim onde eu até sei dançar.